Para fazer oposição a Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT) saiu das urnas neste domingo (28) convencido de que existe espaço para se consolidar na esquerda como líder com base em dois discursos usados na campanha: de que o Brasil é maior do que o PT e que, se o partido o levou ao segundo turno, ele acrescentou muito.

Quando saiu derrotado das urnas em 2016, na Prefeitura de São Paulo, Haddad já admitia que o antipetismo havia prejudicado seu desempenho na cidade e que a chance de o PT manter a hegemonia na esquerda seria pequena, embora maior que a de outros partidos.

Na época, Haddad diagnosticou que a esquerda nunca havia vivido situação tão adversa – e que a tendência de poder no Brasil seria de direita ou extrema-direita.

Dois anos depois, agora com Bolsonaro eleito, Haddad quer convencer o PT e aliados de que é ele o nome para liderar uma frente ampla de oposição ao presidente eleito no campo da esquerda.

Um dos momentos mais comemorados pela campanha do ex-prefeito de São Paulo foi quando ele recebeu apoios “a despeito do PT”.

O comitê se surpreendeu com o fato de ele ter conseguido aglutinar em torno de sua candidatura apoios de intelectuais, artistas e políticos que não votam no PT, além de nomes como os do ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, relator do mensalão na corte, e do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Em seu discurso neste domingo (28), Haddad reconheceu que, entre os 45 milhões de eleitores que votaram nele, muitos não são de partidos políticos e saíram às ruas para pedir voto em sua candidatura.

O plano do petista de se firmar como líder da oposição, no entanto, esbarra em dois pontos.

Um é Ciro Gome (PDT), candidato derrotado no primeiro turno que também vai brigar pelo espólio da esquerda, de olho em 2022.

Outro é o comando do PT, que trabalhou contra a candidatura de Haddad, na visão dos seus aliados mais próximos.

Na véspera da votação do segundo turno, por exemplo, Gleisi Hoffmann, presidente do PT, irritou apoiadores de Haddad ao dar uma entrevista dizendo que o presente do PT, por ocasião do aniversário de Lula, seria ganhar a eleição e tirá-lo da cadeia – exatamente o discurso que Haddad havia trabalhado para se distanciar no segundo turno, a fim de ampliar apoios.

Nesta terça-feira (30), a Executiva do PT vai se reunir para discutir o futuro do partido.

Uma ala defende até que Haddad assuma o partido – o que seus assessores mais próximos rechaçam.

Inclusive, se fosse por eles, o ex-prefeito sairia do PT e migraria para outro partido, como o PSB – o que chegou a ser cogitado no começo de 2018.

Haddad, por ora, deve procurar setores do PSDB que ficaram desconfortáveis com a eleição de João Doria para o governo de São Paulo.

A aposta do grupo de Haddad e de que o alinhamento com Bolsonaro fará com que tucanos de “plumagem respeitável” saiam do partido.

O petista também pretende, junto com Márcio França (PSB) – candidato derrotado ao governo de SP – retomar a conversa com Paulo Câmara e setores do PSB, como Joaquim Barbosa, por exemplo.

Ele também vai manter os laços com o PCdoB de Manuela D’ Ávila, sua vice na chapa à Presidência.

Em seu discurso neste domingo (28), Haddad voltou à retórica de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preso injustamente – discurso que agrada a esquerda.

Como primeira agenda de campanha no segundo turno, na segunda-feira do dia 8 de outubro, Haddad visitou Lula na cadeia – o que foi duramente criticado por setores da campanha que defendiam o afastamento do candidato da imagem do ex-presidente.

Naturalmente, os planos de Haddad para comandar uma frente de esquerda, além de enfrentar os obstáculos dentro do partido e com Ciro, precisarão ter a benção do ex-presidente Lula, preso em Curitiba.

Mas a conversa ficará para outro dia. Hoje, Haddad não vai visitar o padrinho político em Curitiba.

onte e foto: G1