Dias antes de ser morta, a estudante de Artes Visuais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Matheus Passarelli postou em suas redes sociais um desabafo e um pedido de um lugar para ficar no próximo mês na cidade. Segundo a polícia, Matheus foi morta e teve o corpo queimado.

A jovem estava desaparecida desde 29 de abril. Matheusa, como era chamada, tinha identidade de gênero não binária, quando não se considera nem homem, nem mulher.

No relato, Matheus alega que já passou por três moradias diferentes e que a bolsa dada pela instituição de ensino, de R$ 500, não era suficiente para seu sustento.

“Esse valor nunca foi o suficiente para sobreviver aqui (ignorando o sucateamento e atrasos que envolvem a instituição). Já passei por estágios remunerados (em museus) e venho trabalhado com arte e moda desde então, mas, como sabemos, o imperialismo da ainda colonial cidade carioca não nos paga, somente explora; minha única perspectiva para futuros trabalhos remunerados ainda estão no futuro. Ou seja, preciso de um lugar para ficar no próximo mês”, explicou. Matheus deu um depoimento em junho do ano passado em uma reportagem sobre a crise na Uerj. Ela falou sobre o sonho que tinha em cursar uma universidade. Ela era estudante do curso de Artes Visuais e recebia bolsa de auxílio.

“Eu sempre quis fazer uma universidade pública. Desde criança eu entendia que eu podia fazer uma universidade pública e foi um objetivo que eu tomei para mim, de estudar. Então eu fiz isso, eu consegui estudar o suficiente para ingressar na universidade”, explicou Matheus.

Apesar de a instituição não ser a primeira opção que tinha entre as instituições de Ensino Superior do Rio de Janeiro, ela fez questão de manifestar o quanto gostava da universidade.

“Eu me apaixonei pelo meu curso, pelas pessoas que faziam a universidade comigo, e não larguei. Eu tive a oportunidade de fazer Comunicação em outra universidade pública pelo Enem, que eu não tinha conseguido nada, mas, dentro daquelas multichamadas, eu consegui Comunicação. Mas eu já estava aqui na Uerj amando tudo e fazendo vários trabalhos. Aí eu não larguei, estou para a Uerj, sou da Uerj”, explicou.

Matheus chegou a trabalhar em museus e a fazer pequenos trabalhos para compensar a irregularidade nos pagamentos da instituição. “Eu recebo a bolsa da universidade, deveria receber todo mês, só que há muito tempo ela não é regular, acontece com atraso ou às vezes não acontece. Eu já não sei mais qual o mês que eu estou recebendo. Só sei que quando cai, eu falo ‘ufa!’”.

Crime

De acordo com as investigações, Matheus foi morta por integrantes de uma facção criminosa ao entrar no Morro do 18, em Água Santa, na Zona Norte do Rio. O motivo do crime ainda é investigado.

De acordo com informações obtidas  e confirmadas a familiares de Matheus, os policiais consideram que há “fortes indícios” de que o corpo da estudante tenha sido queimado.

Neste domingo (6), o irmão dela escreveu um desabafo em uma rede social. No texto, ele diz que Matheusa, como a chamava, foi “executada”.

“A angústia se transformou no trabalho compartilhado de encontrar a pessoa que mais amei e acompanhei durante a vida. Infelizmente as últimas informações que chegaram até nós e até a instituição pública que está desenvolvendo o processo de investigação demonstram diferentes faces da crueldade a qual estamos submetidos”, escreveu.

A jovem estava desaparecida desde a madrugada de domingo (29), após deixar uma festa de aniversário na Rua Cruz e Souza, no bairro do Encantado, Zona Norte carioca.

A última informação chegada ao Disque Denúncia dizia que Matheusa havia sido vista por volta das 19h30 daquele domingo, em Piedade, também na Zona Norte do Rio. A jovem vestia, na ocasião, bermuda, camiseta e chinelo.

Cerca de quatro dias após o desaparecimento, o Portal dos Desaparecidos divulgou um cartaz pedindo informações a respeito da localização da estudante.

Os investigadores dizem que a morte de Matheus aconteceu por volta das 2h30 de domingo.

Fonte e foto: G1