Centenas participaram de protesto contra união de empresário e professora.
Presidente israelense demonstrou preocupação; juiz autorizou ato.

Mahmud e Morel não imaginaram que o dia mais feliz de suas vidas seria ofuscado pelos gritos de ódio de manifestantes da extrema-direita israelense contrários a este casamento entre um muçulmano e uma judia convertida.

Centenas de manifestantes atenderam no domingo (17) ao apelo da organização ultradireitista Lehava, que milita contra “a assimilação de judeus e os casamentos mistos”.

Vestidos com camisas exibindo lemas racistas, fortalecidos por mais de um mês de guerra na Faixa de Gaza, os manifestantes passaram a noite entrando em confronto com centenas de policiais, tentando se aproximar dos convidados para insultá-los e trocando xingamentos com dezenas de pessoas comovidas pela história de Mahmud e Morel.
Os defensores do casal distribuíram rosas e carregaram cartazes que proclamavam: “O amor é mais forte que tudo” ou “Judeus e muçulmanos se negam a ser inimigos”.

“Morte aos árabes” ou “nunca terão minha irmã”, gritavam em resposta manifestantes que carregavam bandeiras israelenses.
Os incidentes foram transmitidos ao vivo pela televisão.

O casal “Romeu e Julieta” israelense – ele empresário de 26 anos, ela professora de 23 – se conheceu há cinco anos. Morel Malka, judia, se converteu ao Islã. Morel e Mahmud Mansur pensavam que sua união teria consequências nas relações familiares, mas não imaginaram que isso seria um reflexo das tensões do país, exacerbadas pela guerra em Gaza.

A situação escapou totalmente ao seu controle depois que publicaram o convite de seu casamento no Facebook. Com isso, a organização Lehava convocou uma manifestação em frente ao salão de recepção.
“Nada nos afetará, teremos um casamento lindo, o mais bonito que se pode imaginar”, dizia o noivo sorridente antes da cerimônia.
Quatro horas antes da recepção, no pequeno apartamento da família Mansur em Jaffa, um bairro popular de Tel Aviv conhecido pela coexistência pacífica entre judeus e árabes israelenses, a família decorava o salão e dispunha os aperitivos nos pratos.

Nada a celebrar

O pai da noiva não estava lá. Ele havia anunciado pela televisão que não iria ao casamento de sua filha com um árabe.
Já o noivo passou boa parte do domingo no tribunal de Rishon Lezion para tentar fazer com que a manifestação prevista para a noite fosse proibida.

Seu advogado argumentou que o casal tinha sido vítima de intimidação e perseguição. Mas o juiz autorizou a concentração, sob a condição de que ocorresse a 200 metros do salão de recepção.
O caso, muito acompanhado pela imprensa local, chegou aos ouvidos do presidente israelense, Reuven Rivlin, que disse temer que uma linha vermelha fosse cruzada com esta manifestação.

A ministra da Justiça, Tzipi Livni, se disse envergonhada pela ação dos ultradireitistas, que semeia o ódio. “Este tipo de extremismo é insuportável”, afirmou na rádio.

Os noivos tiveram que contratar guarda-costas para proteger os convidados. Às 20 horas, na zona industrial de Rishon Lezion, os centenas de convidados precisaram abrir caminho entre os manifestantes.

“É um casamento, mas não há nada a comemorar, já que a assimilação (o casamento de judeus com pessoas não judias) é uma calamidade”, explicou o integrante da organização Lehava Bentzi Gopstein, conhecido por suas declarações racistas.

FONTE: G1